Tem-te-bem de Luisa Cunha

 Luisa Cunha

Luisa Cunha nasceu em Lisboa, onde vive. Curso Avançado de Escultura no Ar.Co –Escola de Artes Visuais, Lisboa. Tem desenvolvido os seus projectos utilizando texto, som, fotografia, vídeo, escultura, desenho, performance, fazendo intenso uso das pala-vras nas mais variadas perspectivas. A artista é representada pela Galeria Miguel Na-binho em Lisboa. Expõe desde 1993.

As suas exposições individuais incluem entre outras, Ongoing Landscapes, A Bit of Matter and a Little Bit More, Luisa at Galeria Miguel Nabinho, Lisboa,2013, 2015; 2016 Luisa Cunha, Fundação de Serralves, Porto, 2007, Luisa Cunha, CGD-Culturgest, Porto, 2007; Words for Gardens, Chiado 8, Fidelidade Mundial, 2006; Red Shoes, Espaço ao Cubo, Centro Alegro, Alfragide, 2009; Hot Red Hot, no espaço Uma Certa Falta de Coerência, Porto, 2010; Duas Linhas, Espaço Escritó-rio/Avenida 211, Lisboa I’ll be back, projecto A Montra, loja nº 132, Calçada da Estrela, Lisboa, 2013; Ongoing Landscapes, Galeria Miguel Nabinho, Lisboa, 2013; Luisa Cu-nha – exposição antológica, Luisa Cunha - Fundação de Serralves, Porto, 1998/99;

Participou em várias exposições colectivas de que se destacam O que eu sou, Museu EDP, Lisbon, 2017; Quarto de Espanto, Centro de Cultura Contemporânea, Castelo Branco, 2017; Histórias –Obras da colecção de Serralves, Serralves, 2014A2V, Casa das Mudas, Madeira, 2013; El Grito , MUSAC, León, Spain, 2011; Portugal Criativo .jpg incluído no programa Portugal Convida 2011, FAD (Fomento de las Artes y del Di-seño), Barcelona, 2011; Zona Letal, Espaço Vital, exposição itinerante da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, MAC, Elvas, 2011; IMPRESIONES Y COMENTARIOS Fo-tografía contemporánea portuguesa. Obras de la Colección BESarte - Banco Espírito Santo y Colección Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Fun-dación Foto Colectania, Diputación de Valencia, Sala Parpalló, Valencia, Spain, 2010; Gritos de artistas, projecto de Ana Borralho&João Galante (edição de 1 CD) incluído no Projecto da Galeria Artadentro em colaboração com a Rádio Universidade do Algarve – RUA FM, edição experimental durante 1 semana: a RADIAÇÃO (Edition 0), 2010; Mono, project de António Olaio e Carlos Antunes, CAPC, Coimbra, 2010; Linguagem e Experiência. Obras da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, Museu de Aveiro, 2010; Contentores Doca de Alcântara, Lisboa, 2010; Entre Muros, Óbidos, 2010; I’m Not He-re. An Exhibition Without Francis Alÿs, De Appel Arts Centre, Amesterdão, 2010; IV Bienal de Jafre, Spain, 2009; A luz, por dentro, ART ALGARVE, 2009; Cinco Estrelas, Escola Arte Ilimitada, Lisboa, 2009; Oh!, Galeria Miguel Nabinho, Lisboa, 2008; Stream, Whitebox, New York, 2007; Partitura, Casa da Música, Porto, 2007; Por entre as Li-nhas / Between the Lines, Museu das Comunicações, Lisboa, 2007; The Invisible Show, exposição itinerante por: Center for Contemporary Art, Tel Aviv, Israel, 2007; Centro José Guerrero, 2007 e MARCO – Museo de Arte Contemporánea, Vigo, 2006; Caminos: Arte Contemporáneo Portugués – Colección Caixa Geral de Depósitos – últimas adquisiciones Círculo de Bellas Artes, Madrid, 2006; Sydney Biennial, Austrália 2004; Sonoro, Galeria ZDB, 2000; Bienal da Maia 2001 e 2003, Maia; Experimenta De-sign 2001, FIL, Lisboa; Passos 2000, Lyceu Passos Manuel, Lisboa, 2000; Initiare, Centro Cultural de Belém, Lisboa, 2000; Jornadas de arte contemporânea, Palácio do Freixo, Porto, 1996; Greehouse Display, Estufa Fria, Lisboa, 1996; 20000 Minutos de Arte, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 1994; Peninsulares, Galeria de Antoni Estrany, Barcelona, 1995; O papel, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa 1993.

Foi-lhe atribuída menção honrosa da Bolsa Ernesto de Sousa em 1997.

A sua obra está representada nas seguintes colecções: Ministério da Cultura; Caixa Geral de Depósitos; Fundação de Serralves; Fundação Calouste Gulbenkian; Museu das Comunicações; Fundação PLMJ; fundação EDP; Colecção Figueiredo Ribeiro e em várias colecções privadas.

 
 Tempo Suspenso

Tem-te Bem reporta-se ao nome de uma rua de Abrantes, advertindo para perigos iminentes, susceptíveis de acontecer a quem percorre terrenos acidentados. Proferida por uma voz incorpórea, a frase reporta-se não só a ameaças de natureza física, mas igualmente à fragilidade do campo ontológico. Instalada numa antecâmara do espaço expositivo, a instalação sonora dá título à exposição e, portanto, torna-se transversal ao conjunto de obras apresentadas. Enunciando um equilíbrio instável, subjacente a toda a existência, esta mostra recorre ao modo como a relação tangencial dos objetos e da linguagem com uma geometria estrutural se torna garante de estabilidade, a que os seus usuários não têm acesso direto. Condição deveras explícita em Objeto #1, constituída por dois sólidos eixos centrais que se expandem através de filamentos, adquirindo a sua autonomia espacial graças à ostentação de um estabilidade visual indelével. Não obstante, a sua escala modesta e a sua constituição fragmentária atribuem-lhe uma condição objectual e, como tal, a precariedade do que se sustêm apenas ao abranger todas as coordenadas espaciais.

Na série fotográfica Por Agora, a panóplia heteróclita de objetos que o transeunte vai encontrando e fixando, através do dispositivo fotográfico, são encostados a paredes ou passeios até possuírem a inércia silente das superfícies e volumes geométricos. Do mesmo modo, na série Contadores o olhar do transeunte pousa e surpreende-se aquando da súbita ausência de fluxo, em paredes de onde foram retirados contadores de água e as portas que os ocultavam; revelando a matéria inerte, a superfície escavada denota a desertificação a que foram votadas. Na instalação Uns Debaixo dos Outros, a visão de tijolos sem argamassa sugere um intuito construtivo, mas aquando da sua acumulação de modo aleatório e massivo, da estabilidade tectónica apenas restam os módulos da sua produção; tratam-se apenas de escombros de habitáculos que, queimados, sem nome e sem história, enunciam a universalidade de uma inevitável entropia, que retira legitimidade a qualquer pretensão de perenidade arquitectónica e, por acréscimo, civilizacional. Também a obra sonora Uma por Cima da Outra aborda a edificação das cidades como acumulação perpétua de camadas, que se vão anulando sucessivamente. Mas a substituição de nomes de ruas como "Rua dos Oleiros, "Rua da Cadeia," "Rua Cega" ou "Rua do Canzana" por nomes de figuras individuais que, amiúde, se perderam da memória, corresponde à pulverização das atividades ou qualidades que outrora lhes eram inerentes. Ao campo da narrativa e da história foi sobreposta uma neutralidade que, pretensamente, se torna garante de uma estabilidade existencial proporcionada por um sistema rigorosamente abstracto.

Recorrendo ao modo como o tempo vai sendo interrompido pelas pretensões e premências do que se entende por moderno, Luisa Cunha capta sinais ínfimos e quase invisíveis para, de seguida, enfatizar a sua condição ao colocá-los fora do seu contexto. Isolados por enquadramentos fotográficos, pelo recurso exclusivo da voz ou pela inversão da sua função - nos tijolos queimados -, os acontecimentos visuais ou verbais são resgatados do oblívio. Se o tempo da memória é estancado na cidade pelo vórtice do presente, esta exposição aglutina esse sintoma, mas apenas para redimir tudo aquilo que por ele foi atingido. A interrupção brusca do fluxo temporal é assim subvertida pela sua mesma suspensão, através da qual os elementos podem manifestar a sua presença e vitalidade. Apenas através desta estratégia podem funcionar como espelho negativo do anonimato e abandono a que foram entregues. No entanto, será pelo recurso à suspensão temporal que, no interior das imagens e das ações, o fluxo temporal manifesta o seu indelével poder. A vida - seja urbana, histórica ou individual - passa a ser equacionada como maquina mundi, como mecanismo funcionalista permanentemente acionado, que, periodicamente, pode ser interrompido aquando da alteração da sua lógica, deixando ao abandono diversas das suas componentes. Uma solidão primordial apodera-se então desses elementos, instaurando uma distância infinita que os sentencia ao isolamento do universo museológico, assim como à alienação dos seus utentes.

Em Abrantes e noutras paragens, Luisa pressente essa condição e materializa-a pelo recurso a enquadramentos fotográficos, de objetos devidamente arrumados e encostados a paredes, ou dos vazios criados por caixas arrombadas cujos contadores de água se encontram definitivamente ausentes. A derrocada de uma construção inominável e provocada por causa alguma, suspende a sua localização espácio-temporal, sendo a queimadura dos tijolos o único indício de uma perda irremediável e propagada ad eternum. Nas obras sonoras, os nomes das ruas perdem a materialidade da escrita para serem ditas por vozes que, emitidas apenas por altifalantes, são inscritas num tempo interior, por definição ilimitado. Assim, Tem-te Bem é direcionado para o inefável do campo ontológico, e Uma em Cima da Outra dilui a hierarquia do presente e do passado, fixada na pedra das placas, ao transferi-los para o regime da passagem, incorporado pela voz humana. O tempo é suspenso apenas de modo a que possa manifestar todo o seu peso, materializando-se num silêncio interior que deposita tanto o campo verbal como objectual ou, inclusive, espacial no domínio da matéria, que, por inerência, está votada a uma perpétua transformação, porque entregue aos desígnios temporais.


Fernando J. Ribeiro

 


NOW
2017-05-06 16:30 - 2017-06-30 16:30
Local
quARTel – Galeria Municipal De Arte - R. de Santa Ana 10
Abrantes, Portugal
 

Todas as datas

  • De 2017-05-06 16:30 a 2017-06-30 16:30
 

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