• Defeito Desfeito - Diogo Bolota

    Defeito Desfeito - Diogo Bolota
    Até 02 de maio

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Defeito Desfeito - Diogo Bolota

 

Posso fazer-te uma pergunta?


If I held my breath on you
I will die a thousand times
And if chewing was to show you how much I cared
I would have probably be wearing dentures by now
(…)
If you held your breath on me
You would have died a million times
And if chewing was to show me how much I cared
You would have probably swallowed your tongue by now

Benjamin Clementine, Nemesis


Sustemos involuntariamente a respiração quando nos encontramos numa situação de tensão, e ficamos, por instantes, numa apneia fora de água. Ao entrarmos na exposição concebida por Diogo Bolota para o Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes deparamo-nos com um imaginário povoado por morfologias simultaneamente familiares e misteriosas que se inscrevem em estreito diálogo com o espaço onde se situam.

Defeito Desfeito é a exposição individual de Diogo Bolota mais abrangente e ambiciosa até à data: compreende onze obras nos domínios da escultura, do desenho, da pintura e da instalação, todas inéditas. Algumas começaram a ser pensadas para serem apresentadas há cerca de três anos, noutro contexto, ficando numa espécie de limbo, em suspensão, até ao presente. Outras foram ideadas já com este espaço em mente, no seguimento do convite lançado por Fernando Figueiredo Ribeiro.

O núcleo de obras seleccionado possui denominadores comuns face ao restante corpo de trabalho do artista como sejam a sua propensão para gerar situações de tensão e a sua relação particular com a questão da escala. Noutros aspectos, o conjunto constitui-se como um recorte específico, que partilha um vocabulário definido. Visualmente, os elementos-chave de Defeito Desfeito situam-se na região da boca: línguas, dentes e dentaduras. Estes encontram-se sujeitos a agregações e a estados variados, como personagens inquietas, em mutação, que transitam entre obras assumindo diferentes desempenhos, protagonizando acções; nestas operações, oscilam quanto à sua escala; a matéria varia entre a rigidez e a maleabilidade, a viscosidade e a aspereza.

Comecemos por Remédio santo, 2020, que integra um peculiar object trouvé: um dente humano, de adulto, apodrecido (um defeito?), pousado sobre uma almofada de veludo em forma de língua; este parece protegido por uma muralha defensiva, uma arcada de dentes. Item extraído do corpo humano — do domínio do familiar — é aqui elevado a relíquia, o que veicula um sentimento de estranheza que contamina toda exposição. Tal não deixa de ser curioso uma vez que se trata do objecto mais pequeno exposto; a sua singularidade revela-se também porquanto é o único elemento que não foi produzido ou intervencionado. A partir deste ponto entramos na ordem do ficcional, do psicodramático, da sexualidade implícita, como se num sonho surrealista, onde emergem ambiguidades e repetições, numa esfera balizada entre desejo e morte. Convocamos, pois, o conceito de uncanny, oriundo da psicanálise e retomado por Hal Foster em Compulsive Beauty, 1995, para analisar a dimensão social do surrealismo, até então pouco contemplada. O social também não é alheio a este universo particular de Diogo Bolota, consciente do facto de os dentes serem, no domínio do corpo humano, uma das manifestações mais visíveis das assimetrias económicas.

Em vários momentos da exposição o trágico convive com o cómico. Quero, Posso e Mando-me, 2020, inclui uma réplica de uma prancha de piscina. A guarda metálica, preexistente no espaço, e que acompanha a escada e o limite do piso superior, impede o acesso à prancha e, por conseguinte, bloqueia a possibilidade da queda enunciada no título. Todavia, a prancha é encimada por uma dentadura de gesso, material quebrável. Uma certa ligeireza da ordem do lúdico e do burguês — patente tanto no tríptico de desenho S/ Título, 2018, como na prancha — tem como contraponto o facto de uma rede alveolar, planificada, instalada em posição vertical, ao contrário de uma rede de trapezista, pouco servir para amortecer uma eventual queda. Em Amor Obstáculo, 2018, apresentada noutro contexto, a rede da baliza modificada impedia o acesso da bola à baliza. Neste caso, a rede assemelha-se mais a uma teia que une os dois postes, e cuja presença domina a sala, enquanto, ao mesmo tempo, praticamente desaparece em certos ângulos de visão. A rede condiciona a circulação na zona central da sala, forçando a contornar os pilares; e funciona como membrana, através da qual se observa um e o outro lado da sala.

 
A ideia de dualidade é recorrente na exposição: começa na arquitectura da própria sala, marcada pelos pilares centrais e estende-se à bipolarização das estruturas em que assentam as esculturas Descanso, 2019, e Linguagem, 2019. As pinturas Day after facing painting#1 e 2, 2018–2019, localizadas em oposição, nos extremos da sala, inscrevem o observador no hiato entre ambas, numa zona de desconforto. A relação estabelecida entre as duas pinturas parece criar uma linha imaginária de alta tensão, efeito acentuado devido à escala das pinturas e decorrente também da perspectiva de uma delas, que lembra uma arcada superior de tubarão. Em Retrato, 2020, uma dentadura (em cerâmica, aumentada e com sinais de envelhecimento) “vê-se” ao espelho, o que devolve ao observador um inquietante (auto)retrato.

A carnalidade, de algum modo ameaçadora, detecta-se, no caso da pintura, na representação da gengiva, a vermelho vivo e, nos desenhos e esculturas, no erotismo latente das formas. Alguns objectos provocam um apelo ao tacto, caso de Mon blanc Gentil, 2019, que nos transporta para o icónico retrato de uma mulher com L'objet désagréable, 1931 de Alberto Giacometti encostado ao seu peito nu, registado por Man Ray. Evoque-se também o legado de Constantin Brancusi, caracterizado pela depuração linear e pela atenção conferida às bases para mostrar os objectos e, em especial, Le Baiser, de que existem muitas variações.

Somam-se oposições e desdobramentos: num dos desenhos uma vela transfigura-se em língua fálica (ou vice-versa) e num outro uma língua metamorfoseia-se em coração que chora ou em vulva. Os desenhos a que nos referimos fazem lembrar as imagens lenticulares, sobrepostas, que variam consoante o ângulo de visão, mostrando uma ou outra figura, como duas faces da mesma moeda. Neste caso, evidentemente, a imagem está fixa, num só plano; é a nossa leitura sobre a mesma que oscila. Estes dois desenhos escoltam um tríptico, com atmosfera de garden party, onde está presente a ideia de queda, a partir da mobilização do dispositivo do escorrega. Além deste, também o escadote de Linguagem, 2019 reproduz a parelha elevação/queda.

As esculturas de Defeito Desfeito parecem conter um convite para a interacção, para a sua activação. Esta vontade performativa reflecte-se também no display expositivo, numa quase teatralidade para a qual contribui o facto de várias obras se encontrarem fora da escala expectável; as pinturas, com carácter totémico, lembram cartazes de circo. Salienta-se o contraste entre uma paleta restrita onde predominam o vermelho, amarelo e azul (o mesmo azul que extravasa para a prancha), e as esculturas, maioritariamente brancas, e cuja importância para o artista se condensa num dos títulos, “o meu branco Gentil”. Branco de uma pretensa assepsia clínica, materializado em silicone, borracha ou cerâmica — e que, no entanto, ganha bolor, como em Retrato, 2020.

De facto, os jogos de palavras patentes nos títulos das obras têm evidenciado a existência de um horizonte poético constante na prática de Diogo Bolota; constituem-se como estratégias linguísticas na sua articulação com os trabalhos em questão e abrem um campo de exploração semântica. Em Linguagem, 2019, o encontro de línguas (que gera uma mesma língua) liga dois pontos que se encontram em oposição, criando uma ponte; a cristalização do momento, protagonizado por duas dentaduras agigantadas, ocorre em plena mordida. A língua adquire a envergadura de um membro ou de um órgão aumentado. Embora as dentaduras tenham uma presença humanizada são da ordem do universal: não são identificáveis, não possuem atributos ou expressão. São modelos de uma dentição regular, canónica. Corporizam entidades abstractas. Ao tomar a parte pelo todo (ou o inverso), o artista encena sinédoques, operação comum no domínio da linguística.

Uma das questões fundamentais de Defeito Desfeito é a da transformação da matéria. Considerem-se as bases de sustentação de Linguagem, 2019, Descanso, 2019, Mon blanc Gentil, 2020 e de Remédio Santo, 2020 (um par de escadotes, um par de cavaletes e dois plintos, respectivamente). O depósito de pó levou a que os objectos ganhassem propriedades aparentemente orgânicas e, ao mesmo tempo, escultóricas. A descoberta deste inusitado processo de sedimentação ocorreu por mero acaso. No caso concreto dos cavaletes, ao longo de cerca de quinze anos, estes tiveram uma função meramente utilitária, num contexto exterior ao contexto artístico, enquanto base para que outros objectos fossem lacados, numa oficina. Posteriormente, o artista replicou o mesmo processo para as bases das outras peças que se enunciaram. Assim, além de meros dispositivos de apoio, as bases converteram-se em partes integrantes da escultura. Será que esta vontade de transformação da matéria denuncia a longa espera, por parte do artista, pela ocasião para poder mostrar estes trabalhos?

Por vezes Diogo Bolota interpela o seu interlocutor: “Posso fazer-te uma pergunta?”. Hiato, respiração suspensa. Este recurso retórico eleva a expectativa sobre o que iremos ouvir e é também uma armadilha a que dificilmente se resiste. “O que é para ti uma dentição perfeita?”. A pergunta colocada a uma médica dentista por parte do artista surgiu após este ter realizado o molde de diversas dentaduras e de ter pintado e desenhado compulsivamente o mesmo objecto com dimensões diferentes, a partir de modelos em gesso. Na senda do arquétipo, da essência da sua representação, esse objecto foi perscrutado por inúmeros ângulos e adquiriu posições quase coreografadas. O defeito desfeito, a perfeição. A resposta, ao contrário do que esperava, não enfatizou a aparência regular e harmoniosa da boca mas sim a ausência de cáries e a ausência de dentes. Certo é que a preparação desta exposição despertou, desde o primeiro dia, dores de dentes, daquelas que atacam o nervo. Por sorte, evitou-se a desvitalização.


Luísa Especial, Janeiro de 2020


Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes - Coleção Figueiredo Ribeiro

 A nova galeria municipal foi inaugurada no dia 31 de agosto de 2013, no edifício do antigo quartel dos bombeiros municipais. Veio substituir e dar continuidade à antiga galeria municipal que funcionou regularmente, durante 17 anos, junto à praça do município, com a função de divulgar a arte contemporânea e os artistas que a representam. 


Em junho de 2016, tomou a designação de Quartel da Arte Contemporânea – Coleção Figueiredo Ribeiro, após a assinatura de um Contrato de Comodato entre a Câmara Municipal de Abrantes e o colecionador de arte contemporânea Fernando Figueiredo Ribeiro. O espaço do Quartel passou a ser o palco de apresentação deste magnífico acervo, que inclui mais de um milhar de obras dos nomes mais relevantes da arte portuguesa das últimas décadas e de muitos artistas emergentes. 

Comporta três espaços distintos. Os pisos 0 e 1, como área de exposições e o piso -1 destinado à concretização de atividades diversas, como expressão plástica, workshops e promoção/divulgação de pequenos eventos de caráter artístico, cultural e pedagógico. 

Enquanto espaço arquitetónico e expositivo caracteriza-se pela flexibilidade e possibilidade de ordenação desse espaço. O uso da grande área ou a formação de pequenos espaços, delimitados por painéis amovíveis, permitem a cada exposição criar um novo espaço cénico capaz de mostrar um momento expositivo diferente, gerador de uma nova impressão estética.

 
Conversas de Quartel

Um projeto diferenciador, baseado na cultura do conhecimento e da criatividade que se sustenta numa parceria entre o Município de Abrantes, a jornalista Ana Sousa Dias e a Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA). O projeto visa a criação de um produto cultural audiovisual, resultante de entrevistas diretas, realizadas pela conceituada jornalista Ana Sousa Dias aos autores que compõem a paleta programática expositiva da Galeria Municipal.

As “Conversas de Quartel” são um elogio à conversa, dando a conhecer diferentes personalidades ligadas à arte, incluindo talentos locais, acompanhando o percurso do entrevistado e detendo-se sobre os aspetos particulares da sua atividade, as suas convicções e dúvidas, sempre sob uma perspetiva jornalística. O registo intimista, potenciado pelo cenário de arte contemporânea e pelo espírito do lugar, facilitam o acesso ao conhecimento e permitem discutir os caminhos do panorama artístico atual, internacional, nacional e local.

Para além do registo do discurso expositivo, com apoio de alunos de Comunicação Social da ESTA, criar-se-ão repositórios audiovisuais que serão difundidos através dos diferentes canais de comunicação municipais.

 
Entrevistas realizadas
• Catarina Castel-Branco, exposição “Biombos”
• António Vasconcelos Lapa, exposição “Voando – Cerâmica Contemporânea”
• José de Guimarães, exposição “Provas de Contacto”
• David Quiles Guilló, curador da exposição “Meta”/ The Wrong - New Digital Art Biennale - Creative Camp
• Victor Mestre e Sofia Aleixo, exposição de arquitectura “HERITAGE CONTINUITY and ethical link”
• Tomás Dias, exposição “Gravura / a oficina, a técnica e o impressor”




Contactos

Largo de Sant’ana
2200 – 348 Abrantes
T. 241 331 408
E.  Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
GPS 39.464200, -8.201063


Horário de funcionamento

Terça a sábado das 10:00 às 12:30 e das 14:00 às 18:30. 
Encerra aos domingos, segundas e feriados.


 

Exposições anteriores

QUARTEL DA ARTE CONTEMPORÂNEA DE ABRANTES
– COLEÇÃO FIGUEIREDO RIBEIRO

2019

Assomada // Rui Algarvio. Curadoria: Andreia César
Sob o Signo de Saturno
 // Pedro Valdez Cardoso. Curadoria: Ana Anacleto

2018

Do meu lugar o  que eu vejo // Inês Norton. Curadoria: Hugo Dinis
No Princípio
// Henrique Vieira Ribeiro. Curadoria: Adelaide Ginga
Birbante // Pedro Henriques. Curadoria: Nuno faria


2017

White Noise // Fotografia de António Júlio Duarte
Tem-te Bem // Luísa Cunha

O Tempo Inscrito: Memória, Hiato e Projeção // Memória, Hiato e Projeção / Curadoria: Sérgio Fazenda Rodrigues. Uma seleção de obras da Coleção Figueiredo Ribeiro 

A Força das Coisas // Ana Perez-Quiroga. Curadoria: Maria do Mar Fazenda

 
 GALERIA MUNICIPAL DE ARTE

2016

Satoris e Nomadismos // Eurico Gonçalves e João do Vale

Cerâmica Contemporânea // Coletiva

Arte contemporânea, pintura, desenho, escultura, fotografia e instalação // Coleção L. Ferreira

Ponto de partida // Uma seleção de obras da coleção de arte contemporânea Figueiredo Ribeiro
100 anos de Artes Plásticas em Abrantes // 20 anos de Exposições

Circularmente falando - Uma pequena antologia pessoal // Sofia Areal. Parceria: Galeria Neupergama

2015

Chão de Artista // Andreia Inocêncio

Analógico. Urbano. Digital.

ARX // Arquivo
Galeria aberta // Coletiva de fotografia
A Neupergama em Abrantes
Urban Heart // Joana Arez
1928-2011 // Maria Lucília Moita

 
2014
Galeria aberta // coletivo de artistas locais
Gravura / a oficina, a técnica e o impressor // Tomás Dias
HERITAGE CONTINUITY and ethical link // Victor Mestre e Sofia Aleixo, arquitetos
Meta/ The Wrong - New Digital Art Biennale // 180 Creative Camp Abrantes
Provas de Contacto // José de Guimarães
Voando – Cerâmica Contemporânea // António Vasconcelos Lapa
Biombos // Catarina Castel-Branco 

2013
Handle With Care // Ícaro | Monofolha / E(n)caixa – Artistas convidados
A Arte Tecida // Tapeçarias de Manufactura de Tapeçarias de Portalegre / Fotografia de António Cunha


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